O mal precisa sempre de uma desculpa.

As pessoas têm uma necessidade quase compulsiva de desculpar o mal.
Desculpam com o passado, com a dor, com o contexto, com a sociedade, com a religião, com Deus, com o "diabo" — com qualquer coisa que lhes permita não assumir responsabilidade.
Sempre foi assim.
Hoje, talvez mais do que nunca, vemos o mal a ser justificado com argumentos fáceis, reciclados, repetidos até perderem o sentido.
Vemos pessoas a usar a religião como desculpa para aquilo que lhes vai na alma. E isso revela uma enorme confusão — ou uma enorme desonestidade intelectual.
A própria palavra religião remete para Deus.
E se Deus é bom, então nenhuma religião pode justificar o mal.
Muito menos a guerra.
“Guerra santa” já por si só é uma contradição em si mesma.
Guerra e santo não pertencem à mesma frase. Não pertencem sequer ao mesmo campo semântico. Colocá-las juntas é uma violência lógica antes de ser uma violência humana.
Quando alguém usa Deus para fazer o mal, não está a seguir Deus. Está a usar Deus como escudo. E isso não é espiritualidade — é medo travestido de autoridade.
E quem acredita, é porque não usa a cabeça, não pensa por si ou então pensa, e é apenas uma escolha.
A verdade, por mais desconfortável que seja, é simples:
o bem e o mal existem em todas as pessoas.
Não é uma questão de raça.
Não é uma questão de religião.
Não é uma questão cultural.
É uma questão de escolha interior.
Cada pessoa escolhe, todos os dias, consciente ou inconscientemente, de que lado se posiciona. E desculpar o mal é abdicar dessa escolha. É recusar a responsabilidade.
Há algo que acredito profundamente: a inteligência está associada à bondade. Não ao contrário.
O crescimento é expansão.
A expansão exige fluidez.
A fluidez exige energia limpa.
A maldade contrai. Bloqueia. Interrompe fluxos. Mata processos.
Nada cresce no vazio da má intenção.
Existem exceções — casos patológicos, como a sociopatia — mas não explicam o mundo.
O que vemos hoje é um fosso cada vez mais visível entre pessoas que escolhem fazer o bem e pessoas que escolhem fazer o mal. E há ainda aquelas que não escolhem nada. Mas o tempo empurra todos para um lado.
Curiosamente, quem tenta viver com integridade, sobretudo no início, é quase sempre atacado.
Ridicularizado.
Descredibilizado.
A presença limpa incomoda porque obriga o outro a olhar para si próprio. E nem todos estão dispostos a esse confronto.
Por isso, os conflitos não vão desaparecer.
Vão, provavelmente, intensificar-se.
Não porque o bem seja fraco — mas porque expõe.